sexta-feira, 25 de setembro de 2026
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Cultura

Laura Cardoso Morre aos 98 Anos e Deixa um Legado de Mais de 80 Anos de Arte, Pioneirismo e Paixão pelo Teatro

Laura Cardoso Morre aos 98 Anos e Deixa um Legado de Mais de 80 Anos de Arte, Pioneirismo e Paixão pelo Teatro
Reprodução: Internet

O Brasil perdeu na madrugada desta terça-feira (18) uma de suas maiores e mais longevas estrelas. Laura Cardoso morreu às 23h24 de segunda-feira (17), em sua casa, em São Paulo, de causas naturais, aos 98 anos. A informação foi confirmada pelo bisneto da atriz, Fernando Faria, em seu perfil pessoal no Instagram e na página oficial da artista, que conta com mais de 1 milhão de seguidores.

“Nossa grande estrela se despediu de nós. Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso”, escreveu o perfil. O velório será realizado hoje, das 8h às 14h, na Funeral Home, no bairro da Bela Vista, em São Paulo. A cerimônia não será aberta ao público, mas a família informou que quem quiser poderá prestar homenagens na parte externa do local.

Laura deixa duas filhas, Fernanda e Fátima, e três netos.


A Menina do Bixiga que Quis Ser Atriz Num Tempo em Que Isso Era Proibido para Mulheres

Laurinda de Jesus Cardoso nasceu no Bixiga, o bairro italiano de São Paulo, filha de humildes imigrantes portugueses que vieram ao Brasil em busca de uma vida melhor. O ambiente era simples, os recursos eram escassos e as expectativas para uma mulher naquele contexto eram bastante claras: casar, cuidar da casa, criar filhos.

Laura escolheu outro caminho.

Aos 15 anos, em um Brasil dos anos 1940 onde mulheres que subiam em palcos ou apareciam em rádios eram olhadas com desconfiança e frequentemente tachadas de “sem moral”, a jovem Laurinda decidiu que queria ser atriz. Era um ato de coragem silenciosa não uma rebeldia ruidosa, mas uma determinação que pouquíssimas jovens de sua geração teriam. O preconceito contra a mulher artista era real, profundo e socialmente aceito. Famílias tradicionais não deixavam suas filhas seguir esse caminho. Algumas perdiam o nome, o respeito, o acolhimento da própria família.

Laura foi em frente.

Ela iniciou a carreira no radioteatro a mídia de massa da época, que reunia o Brasil inteiro em volta dos aparelhos de rádio para ouvir histórias dramatizadas ao vivo. Foi lá que ela aprendeu o ofício, lapidou a voz e conheceu o marido, Fernando Baleroni, com quem se casou e viveu até a morte dele, nos anos 1980.

Em 1952, com a chegada da televisão ao Brasil, Laura estava lá. Estreou em Tribunal do Coração, novela exibida pela recém-inaugurada TV Tupi um dos primeiros folhetins televisivos do país. Enquanto a maioria das mulheres brasileiras ainda estava tentando entender o que era aquela caixa com imagens em movimento, Laura Cardoso já estava dentro dela, construindo personagens.


Mais de 80 Anos de Carreira: Um Recorde Sem Paralelo

Pouquíssimos artistas no mundo podem dizer que trabalharam por mais de oito décadas. Laura era um deles. Ao longo de uma carreira que começou nos anos 1940 e se estendeu até meados dos anos 2010, ela acumulou mais de 100 trabalhos registrados, incluindo mais de 60 novelas, dezenas de filmes, peças teatrais que marcaram gerações e até dublagens que entraram para a história da cultura popular brasileira.

Foi a voz de Betty, a esposa de Barney Rubble nos Flintstones, na versão brasileira do desenho animado nos anos 1960. Toda uma geração de brasileiros cresceu ouvindo Laura Cardoso sem saber que era ela.

No teatro, participou de montagens ousadas para a época. Em A Megera Domada, em 1965, e em Laranja Mecânica, em 2002 quando já tinha mais de 70 anos, demonstrou que nunca teve medo de material desafiador. O teatro era sua paixão primeira, o lugar onde se sentia mais livre, mais inteira.

No cinema, esteve em produções marcantes do cinema nacional, como Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles e Daniela Thomas, um dos filmes brasileiros mais importantes dos anos 1990 e um registro de época sobre o Brasil pós-Collor, o êxodo de jovens e a sensação de não pertencer a lugar nenhum.


Os Personagens que o Brasil Não Esquece

Entre mais de 60 novelas, dois personagens se fixaram de forma permanente no imaginário do telespectador brasileiro.

A mãe de Ruth e Raquel, em Mulheres de Areia (1993), da TV Globo, é talvez o papel mais lembrado da carreira de Laura. A novela, escrita por Gilberto Braga e protagonizada por Eva Wilma no papel duplo das gêmeas, tinha em Laura uma figura materna de peso dramático extraordinário. Ela entregou um personagem cheio de nuances, culpa, amor e contradição o tipo de atuação que fica na memória não pela intensidade exagerada, mas pela verdade interna.

Outro marco foi a Guiomar de A Viagem (1975), novela espírita baseada na obra de Arnaldo Zanotto. Em um Brasil que começava a se abrir para discussões sobre espiritualidade na teledramaturgia, Laura construiu um personagem que equilibrava drama e delicadeza com maestria.

Fora das novelas, participou de A Dona do Pedaço em 2019, aos 91 anos, interpretando Matilde Azevedo. Era sua forma de dizer que ainda estava lá e ainda entregava.


O Contrato Vitalício e a Presença até o Fim

Em reconhecimento à sua contribuição à televisão brasileira, a TV Globo firmou com Laura Cardoso um contrato vitalício uma honraria raríssima, concedida a pouquíssimos artistas ao longo da história da emissora. O contrato era um símbolo: o reconhecimento de que Laura não era apenas mais uma atriz no elenco, mas parte da própria história da televisão brasileira.

Mesmo nos últimos anos, longe das novelas, ela não se afastou completamente. Em 2025, participou da gravação da vinheta de fim de ano da Globo, reencontrando amigos como Tony Ramos e Susana Vieira. E em outubro do mesmo ano, compareceu pessoalmente à cerimônia de inauguração da Calçada da Fama dos Estúdios Globo, onde ganhou sua estrela e fez questão de estar presente para recebê-la.

Em 2006, foi agraciada com a Ordem do Mérito Cultural, concedida pelo governo federal a personalidades que contribuem de forma excepcional para a cultura brasileira.


Uma Mulher Que Não Tinha Medo da Morte Nem de Nada

Em entrevista à Quem, em 2019, quando estrelou a capa da revista aos 91 anos, Laura falou sobre a morte com a serenidade de quem já viveu o suficiente para entender que temer o inevitável é perda de tempo.

“Brinco com as minhas filhas que só tenho medo do fantasma. Mas não tenho medos, nem da morte. É uma besteira ter medo da morte! Ela é imprevisível, mas inevitável. A gente não sabe quando ela vem, mas que ela é certa para todo mundo, ela é. Só não diz a hora que vem”, disse ela.

E completou: “Amo a vida, agradeço a Deus por ter chegado a essa idade, mas a gente um dia vai embora.”

Quando alguém perguntava sobre aposentadoria, ela respondia com a frase que talvez defina melhor do que qualquer currículo quem foi Laura Cardoso: “A gente se aposenta quando vai embora.”

Na madrugada desta segunda para terça, aos 98 anos, depois de mais de oito décadas dando vida a personagens que ficaram para sempre no coração do povo brasileiro, Laura Cardoso foi embora. E se aposentou.

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