O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, agradeceu ao senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pela oferta de colocar uma “equipe de transição” à disposição do governo americano caso seja eleito nas eleições de outubro. A carta de Rubio, datada de 23 de junho de 2026, foi enviada em resposta a uma correspondência anterior do parlamentar e à sua recente visita a Washington.
“Registramos seu otimismo em relação às eleições de outubro e sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição, caso seja eleito. Os Estados Unidos estão prontos para trabalhar em cooperação com os líderes escolhidos pelo povo brasileiro em prol de uma estrutura ampla, justa e mutuamente benéfica de comércio e investimentos”, escreveu Rubio.
O movimento chama atenção porque a legislação brasileira prevê que a formação de uma equipe de transição deve ocorrer entre o governo que está no poder e o que acabou de ganhar as eleições não entre um pré-candidato e um governo estrangeiro.
O Que Flávio Propôs aos EUA
Em ofício enviado a Rubio no dia 2 de junho, Flávio Bolsonaro afirmou estar “confiante” de que será eleito presidente em outubro e propôs disponibilizar sua equipe de transição imediatamente após a vitória para avançar em um acordo comercial bilateral.
“Como já afirmei, estou confiante de que serei eleito Presidente do Brasil neste mês de outubro. Caso essa seja a vontade do meu povo, estou preparado para colocar minha equipe de transição imediatamente à sua disposição, para que possamos concluir, o mais rapidamente possível, um amplo acordo de comércio e investimentos benéficos para ambas as nossas nações construído sobre os princípios dos mercados livres, do respeito mútuo e da aliança estratégica que nossos povos merecem”, disse o senador no documento.
O Que Diz a Lei Brasileira
A proposta de Flávio, no entanto, contraria o que estabelece a legislação nacional sobre transição governamental. Segundo a lei, a equipe de transição tem uma função específica e restrita: inteirar o presidente eleito sobre o funcionamento dos órgãos e entidades da administração pública federal e preparar os primeiros atos do novo governo.
“Transição governamental é o processo que objetiva propiciar condições para que o candidato eleito para o cargo de Presidente da República possa receber de seu antecessor todos os dados e informações necessários à implementação do programa do novo governo, desde a data de sua posse”, define a lei.
A norma também prevê que poderão ser criados até 50 cargos em comissão chamados de Cargos Especiais de Transição Governamental (CETG) para compor a equipe, escolhida pelo presidente eleito. Em nenhum momento a legislação prevê que essa estrutura seja colocada à disposição de um governo estrangeiro.
Tarifas, Pix e as “Diferenças Substanciais”
A carta de Rubio vai além dos agradecimentos. O secretário aproveitou o contato para reafirmar a postura dos Estados Unidos em dois temas sensíveis na relação bilateral: as tarifas comerciais e a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.
Sobre o comércio, Rubio foi direto ao afirmar que o representante comercial americano, embaixador Jamieson Greer, “deixou claro” que os dois países ainda têm “diferenças substanciais” a resolver. Ele listou os pontos de atrito:
- Tarifas preferenciais consideradas injustas pelos EUA
- Barreiras ao acesso ao mercado de etanol
- Desmatamento ilegal
- Proteção insuficiente de propriedade intelectual
Entre os pontos de tensão comercial, o Pix aparece como um dos alvos de maior atenção americana. O sistema de pagamentos instantâneos do Brasil se tornou um dos casos de sucesso financeiro mais comentados do mundo e um incômodo para empresas americanas do setor financeiro. O Brasil realizou 36,3 bilhões de transações via Pix apenas nos cinco primeiros meses de 2026, segundo dados do Banco Central, movimentando cerca de R$ 16 trilhões alta de 26,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Para os EUA, o modelo público e gratuito do Pix representaria uma barreira ao avanço de plataformas privadas americanas no mercado financeiro brasileiro.
A investigação comercial a que Rubio se refere foi aberta em julho de 2025, a pedido do presidente Donald Trump, pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR). A proposta do governo Trump é impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros. Uma audiência pública sobre o tema está agendada para o dia 6 de julho de 2026, quando empresas, associações e governos poderão apresentar argumentos antes da decisão final da administração americana.
PCC e Comando Vermelho como “Terroristas”
Rubio também abordou na carta a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e “Organizações Terroristas Estrangeiras” medida anunciada pelo governo Trump e que gerou reações no Brasil.
O secretário agradeceu o apoio de Flávio Bolsonaro à decisão e justificou a iniciativa: “Os Estados Unidos reconhecem que a violência e as sofisticadas redes criminosas dessas facções ameaçam a segurança de cidadãos honestos em nosso hemisfério compartilhado. Ao visar suas redes financeiras, de drogas e de armas, estamos tomando medidas decisivas para proteger os povos brasileiro e americano do crime organizado transnacional.”
O Contexto: Flávio Bolsonaro e a Corrida Presidencial
Flávio Bolsonaro, senador pelo Rio de Janeiro e filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, é pré-candidato à Presidência da República nas eleições de outubro de 2026. Sua aproximação com o governo Trump e agora diretamente com o secretário de Estado Rubio faz parte de uma estratégia clara de posicionamento internacional, alinhando sua candidatura ao campo conservador que governa os Estados Unidos.
A troca de cartas e a visita a Washington reforçam esse alinhamento, mas também acendem um debate jurídico e político no Brasil: até que ponto um pré-candidato pode negociar com governos estrangeiros em nome de um futuro mandato que ainda não existe?
Deixe um comentário