O Brasil chora nesta terça-feira (18) por duas lendas. Horas depois da morte de Laura Cardoso, aos 98 anos, outra gigante da televisão brasileira se foi: Glória Menezes morreu aos 91 anos, encerrando uma história de vida que se confunde com a própria história da teledramaturgia nacional. A atriz partiu cinco anos depois do marido, Tarcísio Meira, morto em agosto de 2021 e assim, o casal mais icônico da TV brasileira se reuniu novamente, dessa vez para sempre.
A causa e o horário exato da morte ainda não foram divulgados oficialmente até o fechamento desta edição.
O Dia em Que Tudo Começou: Os Bastidores de uma Peça e um Amor para a Vida Toda
Era 1960. Glória Menezes, gaúcha de carreira ascendente, havia sido convidada pelo diretor Antunes Filho para participar da peça Feiticeiras de Salém montagem que já renderia frutos profissionais importantes, incluindo mais um prêmio de atriz revelação. Mas o maior presente que aqueles ensaios trouxeram não foi o troféu.
Foi Tarcísio Meira.
O jovem ator paulista, de 25 anos na época, cruzou os bastidores do espetáculo e entrou na vida de Glória para nunca mais sair. Ele mesmo descreveu o momento, anos depois, em entrevista ao O Globo: “Estava ensaiando a peça e, de repente, passou aquela coisinha linda. Eu falei: ‘O que é isso?'”
A amizade veio antes do amor. Um teleteatro em 1961, Uma Pires Camargo, aproximou os dois ainda mais. Quando Glória foi a Cannes para o lançamento do filme O Pagador de Promessas uma das obras mais importantes do cinema brasileiro, Palma de Ouro em 1962, Tarcísio mandou flores e um cartão com três palavras: “Volte, volte, volte.”
Ela voltou. E em 1962, o casal se uniu oficialmente. Junto com o filho Tarcísio, que nasceu dois anos depois, Glória ainda tinha Maria Amélia e João Paulo, filhos do casamento anterior com Arnaldo Brito.
Pioneiros da Telenovela Diária no Brasil
A vida pessoal e a profissional de Glória e Tarcísio eram inseparáveis e juntos, eles fizeram história na televisão brasileira de um jeito que poucos casais conseguiram.
Em 1963, protagonizaram 2-5499 Ocupado, considerada a primeira telenovela diária do Brasil, transmitida ao vivo pela TV Excelsior. Era um formato novo, ousado, sem rede de segurança tudo ao vivo, todo dia, para um país que ainda aprendia a lidar com a televisão. Glória e Tarcísio estavam lá, na linha de frente de um experimento que mudaria para sempre o jeito de fazer e consumir televisão no Brasil.
Depois de mais nove novelas na Excelsior, o casal assinou com a TV Globo, então uma emissora jovem, fundada em 1965. Na Globo, estrearam em Sangue e Areia (1967), escrita por Janete Clair novela que inaugurou a faixa das 20h na emissora. O horário nobre da televisão brasileira, aquele que parava o país todo dia às oito, nasceu com Glória e Tarcísio em cena.
O “Casal 20” que Parava o Brasil
Durante 59 anos, Glória Menezes e Tarcísio Meira foram o casal da televisão brasileira. Não havia aspas nessa definição era literal. Eles protagonizaram novelas juntos ao longo de décadas, construindo uma cumplicidade em cena que o público sentia como real porque, de certa forma, era.
Entre as parcerias mais marcantes estão Irmãos Coragem (1970), novela de Janete Clair que foi um fenômeno de audiência e curiosamente despertou o interesse do público masculino num gênero que até então era considerado entretenimento exclusivamente feminino. Depois vieram O Homem que Deve Morrer (1971), Torre de Babel (1998) e A Favorita (2008), entre muitas outras.
Trabalhar décadas ao lado do marido poderia parecer complicado para qualquer casal. Para Glória, era natural e ela explicava o motivo com a simplicidade de quem sabe o que tem: “Existe um respeito mútuo no trabalho de cada um e uma colaboração amiga, porque não existe amigo maior do que o Tarcísio e eu me considero a melhor amiga dele também. Trocamos críticas construtivas, para que estejamos sempre melhorando.”
O Segredo de Um Amor que Durou Mais de Seis Décadas
Quando perguntavam a Glória qual era a receita para um casamento tão longo e feliz, ela respondia com honestidade e humor: “Não tem receita para um casamento longevo. Se tivesse, eu estava trilionária.”
E completava, com a serenidade de quem viveu o suficiente para saber o valor do que tinha: “Eu me considero uma privilegiada por ter um amor verdadeiro ao meu lado. A nossa convivência funciona para nós dois. Para outras pessoas, pode não dar certo. Cada casal é diferente do outro.”
O amor resistiu às pressões da fama, às ausências dos sets de gravação, às críticas, às fases difíceis. Resistiu a tudo menos à Covid-19. Em agosto de 2021, Tarcísio Meira morreu após cinco dias internado na UTI do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, com complicações da doença. Glória estava internada no mesmo hospital, com sintomas leves, e sobreviveu.
Perdeu o marido e, com ele, a outra metade de uma história que o Brasil inteiro acompanhou por quase seis décadas. A vida seguiu em frente como ela mesma dizia que precisava seguir. Mas o vazio de Tarcísio era visível.
Cinco anos depois, na mesma data de agosto que marcou a partida dele, Glória Menezes foi ao encontro do marido.
Um Dia de Luto Duplo Para a Televisão Brasileira
A morte de Glória Menezes ocorre no mesmo dia em que o Brasil também chora Laura Cardoso, morta na madrugada desta terça. Duas mulheres que começaram suas carreiras numa época em que ser atriz era desonroso aos olhos da sociedade, que enfrentaram preconceito, que persistiram e que se tornaram duas das maiores referências da cultura brasileira do século XX.
É uma coincidência rara e dolorosa. O 18 de agosto de 2026 ficará marcado na história da televisão brasileira como o dia em que duas das suas maiores estrelas se apagaram ao mesmo tempo.
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