Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori, é a nova presidente eleita do Peru. A vitória foi ratificada nesta sexta-feira (3) pelo Jurado Nacional Eleitoral (JNE), órgão máximo eleitoral do país, em cerimônia oficial de proclamação realizada em Lima. Ela deve assumir o cargo em 28 de julho para um mandato de cinco anos.
A candidata de direita obteve 9.223.396 votos 50,135% do total, contra 9.173.755 votos do adversário, o deputado de esquerda Roberto Sánchez, com 49,865%. Apenas 49.641 votos separaram os dois candidatos, em um resultado que escancarou a profunda polarização política do país.
A Sombra do Pai: Quem é Keiko Fujimori
A nova presidente carrega um sobrenome que divide o Peru há décadas. Seu pai, Alberto Fujimori, governou o país entre 1990 e 2000 e é uma das figuras mais controversas da história peruana. O período foi marcado por medidas econômicas que derrubaram a inflação e combateram o grupo terrorista Sendero Luminoso, mas também por violações graves de direitos humanos, corrupção e o chamado “autogolpe” de 1992, quando o próprio Fujimori dissolveu o Congresso e o Poder Judiciário para concentrar poder ato que rendeu ao regime a classificação de ditadura por organismos internacionais.
Alberto Fujimori foi condenado por crimes contra a humanidade e corrupção, cumprindo pena até 2023, quando foi solto por razões humanitárias por uma decisão controversa do Tribunal Constitucional peruano. Ele morreu em setembro de 2024.
Keiko, que acompanhou de perto a queda e a prisão do pai, entrou na política como herdeira do fujimorismo e já disputou a presidência em 2011 e 2016, perdendo em ambas as ocasiões no segundo turno. Em 2021, perdeu novamente, para Pedro Castillo, por margem igualmente estreita. Agora, na quarta tentativa, chegou ao poder.
Apuração Tensa e Alegações de Fraude
A votação ocorreu no dia 7 de junho, mas o resultado só foi proclamado semanas depois, em meio a uma apuração marcada por tensão e disputas jurídicas. Durante dias, Sánchez liderou a contagem de votos dentro do território peruano. A virada veio com os votos da diáspora peruana no exterior, que penderam fortemente para Keiko e definiram o resultado final.
O adversário de esquerda alegou fraude e convocou protestos, recorrendo ao JNE para impugnar as urnas do exterior. O argumento era de que Sánchez teria a maioria caso apenas os votos dados em solo peruano fossem considerados. O JNE julgou o pedido improcedente. Sánchez anunciou que não aceitará o resultado e que levará o caso à Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH). Advogados especializados em direito eleitoral consultados pelo jornal peruano El Comercio avaliaram que o recurso não tem fundamento jurídico e serve apenas para atrasar a proclamação.
Já no dia 24 de junho, quando alcançou uma vantagem considerada irreversível na apuração, Keiko fez um discurso como vencedora de fato, sem, no entanto, reivindicar a vitória formalmente. “Estamos cientes de que o Peru está dividido, de que está praticamente partido ao meio”, disse ela diante de repórteres em Lima, prometendo trabalhar pela reunificação do país.
Um País com Oito Presidentes em Oito Anos
Keiko assume o Peru em um cenário de instabilidade política crônica. O atual presidente, José María Balcázar Zelada, de esquerda, está no cargo há apenas quatro meses de forma interina. Ele substituiu José Jeri, que também ficou no posto por apenas quatro meses antes de ser destituído pelo Congresso por má conduta, após revelações de que participou de reuniões não divulgadas com empresários chineses.
Antes de Jeri, estava Dina Boluarte, igualmente interina, também destituída por escândalos de corrupção. E antes dela, Pedro Castillo que foi preso após dissolver o Congresso e declarar estado de exceção em uma tentativa desesperada de escapar de um processo de impeachment.
O saldo é impressionante pela instabilidade: só nos últimos oito anos, o Peru teve oito presidentes. O país andino vive um dos períodos mais turbulentos de sua história política recente, e Keiko Fujimori herda esse cenário fraturado.
Os Desafios que Esperam Keiko
A nova presidente assumirá um país com desafios consideráveis. O aumento da criminalidade é um dos temas mais urgentes na agenda peruana, com crescimento do crime organizado e da violência em diversas regiões. No plano econômico, o Peru mantém fundamentos sólidos, mas a instabilidade política dos últimos anos gerou incerteza para investimentos.
No campo político, Keiko terá dificuldade em governar com um Legislativo profundamente dividido entre esquerda e direita reflexo direto dos 49.641 votos que separaram os dois candidatos. Construir maioria no Congresso será um dos primeiros e maiores testes de sua gestão.
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